segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Oi mãe!!!



Como está?
Espero que esteja muito bem, assim poderemos conversar um pouco. Faz tempo que não fazemos mais isso. Que não relembramos das “traquinagens” que aprontávamos  e a senhora era a primeira a estar junto com a criançada.
Um dia desses a noite, olhando ao meu redor comecei a perceber que não se vê mais vagalumes, mesmo em um quintal tão grande e com tantas plantas. Acredito que a sociedade atual, com o tão alardeado desenvolvimento urbano, está exterminando várias espécies de animais, pássaros e insetos que tínhamos anos atrás.
Lembra quando saíamos durante a noite, naquele imenso quintal onde ficava nossa casa, em busca das pequeninas luzes que acendiam e apagavam? Eram tantas! A cada segundo acendia uma em um lugar. Depois apagava e no lado oposto outras cintilavam. Era uma aventura; necessitava agilidade e rapidez para não perdê-las.
Tínhamos que estar munidos com caixinhas e suas respectivas tampas. O silêncio precisava ser profundo para não interferir com os sons dos grilos e de outros bichinhos noturnos; e lá íamos nós “caçar” vagalumes, colocando-os nas caixinhas bem fechadas para que não fugissem. Quando a “caçada” já havia terminado, sentávamos todos juntos e aos poucos abríamos só a pontinha da tampa, para vê-los brilhar dentro da caixinha. Era tão lindo! Passavam-se muitos minutos, cada um contando quantas luzinhas tinha na caixa.
Satisfeita nossa curiosidade; pois queríamos entender como é que acontecia esse fenômeno do acender e do apagar em um ser vivo. Nunca conseguíamos descobrir.  Exaustos, já querendo dormir, abríamos  as caixas e lá iam todos piscando de volta a escuridão.
Mãe, a senhora ainda lembra que era sempre a primeira pessoa que dava idéias geniais?
Não lembra?
Como não? Está é querendo tirar o “corpo fora”, pois agora sabemos que não deveríamos fazer esse tipo de brincadeira. Essa não é uma forma correta de lidar com a natureza.
Agora lembrou, não é?  Sabia que lembraria, sempre teve boa memória.
O pior ainda está por vir. Pior agora, antes era fenomenal!!!
As borboletas. “Caramba”! Se fosse hoje, os ambientalistas nos prenderiam por crime ambiental.
Estava “declarada a época de caça as borboletas”. Havia de todas as cores, tamanhos e desenhos nas asas. Sensacional!
Ficávamos imensamente felizes quando conseguíamos uma bem grande. Era um troféu!
Agora, depois de tanto anos, sabemos que agimos errado, mas na época por ingenuidade por vontade de entreter as crianças, compensava. Não é mãe?
O que fazíamos depois de “caçá-las”? Vamos, conte-nos. É a autora da idéia que tem que contar se não, não vale!
Quantos anos mesmo já se passaram? Nem me lembro, só sei que precisaremos de muitos dedos para contá-los.
Bom, vamos lá.
- Mãe cadê os alfinetes, perguntávamos e ela respondia:
- estão na máquina de costura, na segunda gavetinha.
- e o isopor onde está? A criançada outra vez perguntando.
Caros leitores já perceberam o que viria depois desses materiais todos em nossas mãos? Isso mesmo confeccionávamos quadros com borboletas. O pior é que ainda hoje vejo em alguns lugares gente vendendo pratos com as “bichinhas” mortas dentro. Que dó!
Parece mentira, mas não tínhamos essa consciência. Acredito ser motivado pela imensa quantidade existente e assim não nos preocupávamos com algumas.
Arrependo-me tanto te ter espetado tantas borboletas com alfinetes no isopor.
Mãe! Acredito termos tido uma boa participação na escassez da espécie.
Essas brincadeiras eram tão boas, mas agora entendemos que estava ecologicamente incorreta. Cá entre nós, bem baixinho, era bem divertido, não acha?
Claro que acha! A senhora se divertia muito, parecendo ser uma criança também.
Como foi bom tê-la por perto durante toda a minha infância. Mãe de tempo integral. Mãe que largava tudo o que estava fazendo para satisfazer nossas vontades e pedidos.
Éramos tão felizes!
Eu não consegui ser uma mãe de tempo integral para meus filhos. Hoje eu me arrependo, mas já foi. Não se deve chorar o “leite derramado” como diz o ditado popular.
Passamos ótimos anos juntas. Às vezes a senhora ficava muito brava comigo porque sempre fui o que se chama agora de “bocuda”, “respondona”.
Sabe mãe, acho que eu “me achava”!!!
E lá saía a dona Gleyde, com “Y”; pois se colocassem com “i”, vocês nem imaginam o sermão que ela dava, correndo atrás de mim dizendo: venha cá que eu vou te pegar. Não corre que será pior. Aí é que eu corria mais ainda e depois dava um tempo para as coisas “esfriarem”. Quando voltava para casa tudo já havia sido esquecido e voltávamos a conversar como se nada houvesse ocorrido. Só mãe mesmo!
Saudades de minha infância, mas é uma saudade gostosa; pois acredito que vivi tantas aventuras que será difícil minha memória relembrá-las ou qualquer jogo de game fazer uma criança de hoje experimentar, vivenciar, conhecer o que é realmente ser criança.
Vou lhe contar um segredo: eu adorava ver aquelas suas fotos quando era moça. Era tão linda! Aí eu pensava; ”será que um dia serei tão bonita quanto ela”?
Calma, eu sei não esqueci. Não precisa ficar me lembrando do seu aniversário. Eu nunca, nenhum ano o esqueci. Também se esquecesse o senhor Digníssimo João Abel, meu maravilhoso pai, fazia questão de me ligar.
No dia nove de janeiro de 2013 a senhora estaria completando 79 anos. Seria legal se tivesse podido ficar mais tempo com a gente. Já pensou quando completasse 80 anos faríamos uma festa de “arromba” como dizia o senhor meu pai.
Fazer o quê! Deus resolveu chamá-la para junto a Ele quando a senhora havia completado apenas 45 anos.
São tantas lembranças, tantas saudades, tantos colos que me fizeram muita falta e ainda o fazem.
Gostaria de poder ter pelo menos mais um dia para “caçarmos” vagalumes e nos despedirmos. Não tivemos a oportunidade de fazê-lo. Foi tudo muito rápido.
O tempo passa, continuamos nossas vidas e sei que onde estiver está olhando por nós. Sinto isso. Sua presença é muito forte em minha memória e em meu coração.
Mãe, muito obrigada por ter me proporcionado uma infância maravilhosamente feliz...
Simples Assim!!!
(Selma Serrano Amaral)

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