Estou
sentada a porta de minha varanda lendo; afinal, encontro-me de férias!
De
vez em quando dou uma espiadela em alguns movimentos que ocorrem ao meu redor,
mas, imediatamente volto-me a leitura, sem dar muita atenção.
Minhas
duas cachorras dormem esticadas no chão tentando suportar o calor que está
muito forte. Imagine sensação térmica de quase 50 graus Celsius!
Juntamente
a nós três, está meu canário branco. Canta como se o mundo fosse acabar hoje,
quanto fôlego! De vez em quando pula de um poleiro para o outro, come, bebe
água, enfim, não tem sossego. Para completar este cenário, estamos sendo
acariciados pelo vento forte e revigorante de um grande ventilador. Só assim
para suportar o abafamento.
Lá
fora os pássaros descem da árvore e da roseira para comer as quirelas que
caem do prato que fica pendurado em um dos galhos da árvore. Engenhocas do
Sr. João Abel, meu pai e que fiz questão de continuar com essa “tradição”; pois
foi a última imagem que tive dele aqui nessa casa, antes de sair para o
hospital, no qual se internaria para refazer uma cirurgia cardíaca em novembro de 2011 e nunca mais voltaria. Logo
cedo vim buscá-lo. Falei do portão: “pai, sou eu” e ao mesmo tempo olhei pela
pequena abertura que existe no portão. Sua resposta foi: “já vou filha, espera
só um pouquinho”! Continuei a observá-lo e o vi pegando, no local já de
costume, as quirelas dos pássaros e as colocava no prato, como de costume.
“Naquele
momento pensei:” como pode uma pessoa de 79 anos que não enxerga mais em
virtude do glaucoma que levou embora toda a sua visão, que vai se submeter a
uma cirurgia de alto risco, lembrar em deixar a comidinha dos pássaros, que com
o amanhecer já estavam acostumados a encontrá-la.
Foi
uma imagem linda! Sei que nunca mais
sairá de minha memória e de meu coração.
Têm
rolinhas, biquinhos-de-lacre (era assim que ele os chamava), pardais e outros
que desconheço os nomes.
Nesse
instante abaixei o livro e fiquei prestando atenção no que estava ocorrendo em
meu entorno. Huanna, uma pitbull
branca lindíssima, dormia como uma criança, até ressonando, fazendo barulhos e
se mexendo como se estivesse tendo altos sonhos. Será que cachorro sonha? Uma
boa pergunta para ser pesquisada. Logo ao lado, a “donzela maluca” Haycka, uma dachshund teckel, mais popularmente
conhecida como cachorro salsicha, Cofap e sei lá mais o quê. Só sei que tem
“espírito de porco”, popularmente falado; ou seja, não para, estraga tudo,
adora fazer xixi na da cama do meu filho que detesta cachorro, adora correr
atrás das rolinhas e quando uma bobeia “já era” literalmente. Entenderam como
ela é infernal, mas quando me olha com aqueles olhinhos de “me desculpa, eles
que me provocaram”, esqueço suas peripécias e ainda ganha um colo. Agora
mesmo está brigando com um tapete pequeno porque ele não quer ficar na posição
certa que ela deseja para se aconchegar; é mole ou quer mais!
Ouço
o canto dos pássaros, vejo-os dando pequenos vôos como se estivessem brincando
um com o outro. Agora consegui contar, pelo menos, uns dez deles no chão
fazendo estripulias, pulando, abrindo as asas, correndo um atrás do outro.
Começa
a soprar uma brisa, balançando os galhos das árvores de uma forma rítmica,
aguçando a vontade das folhas em bailar no mesmo ritmo.
Ao
longe ouço as vozes dos vizinhos que estão pintando a casa para a festa do Ano
Novo, carros transitando e pessoas caminhando. A vizinhança não é grande; pois
a rua é pequena e tranqüila e quase a totalidade dela já se conhece por mais de
trinta anos.
Tempos
atrás, nesse momento de férias, estaria impaciente para sair, ir passear no
shopping, gastar dinheiro, comprar coisas no cartão de crédito e depois
enlouquecer para pagá-lo, comer, ficar olhando outras pessoas se movimentando e
como se comportavam. Uma verdadeira fofoqueira fútil! Brincadeira,foi só uma
descontração no texto.
Engraçado
como mudamos, como nossos valores passam a ser outros. Não digo nem melhores
nem piores e sim apenas aqueles aos quais nos identificamos mais no momento.
Hoje
eu quero isso: paz, ver a simplicidade nas e das coisas. Perceber que há um movimento maravilhoso ao
nosso redor e nem nos damos conta. Aproveitar meu tempo livre para “curtir”
minha casa, meus livros; pois adoro ler e acima de tudo, me “curtir”. Estar bem
comigo mesma, sem ansiedades, sem ter que agradar alguém ou fazer o que não
quero no momento, sem culpas, sem estresses, sem cobrar-me perfeição no que
faço. Hoje caminho no meu ritmo, no meu compasso.
Estou
sendo “eu”, autenticamente “eu” e motivada a viver um dia de cada vez. Apreciando
toda a beleza que ele pode me oferecer.
Estou
recarregando minha “bateria” humana, me sentindo fazendo parte dessa natureza
maravilhosa, desse mundo de valores simples, não simplórios, acreditando que
poderia haver muito mais paz se mais pessoas reconhecessem a importância de se
envolver pela beleza de “ser um eterno aprendiz”.
Simples
Assim!!!.
(Selma Serrano Amaral)
(Selma Serrano Amaral)

