Levo um susto imenso quando toca o
telefone domingo pela manhã.
Ouço a voz do outro lado da linha: “acorda sua bruxinha, isso é hora de estar
dormindo ainda? Eram assim todos os domingos. Eu já estava até
condicionada, como a experiência com os bichinhos que fazíamos na escola,
dormindo, toca o telefone, me assusto e do outro lado da linha era meu pai. Não
falhava nenhum domingo. Hoje até estranho o silêncio do telefone. Às vezes fico
olhando para ele que está bem ao lado da cabeceira de minha cama e fico
pensando: toca, toca mais uma vez para mim, mas não, ele fica mudo, totalmente
em silêncio.
Por muitas vezes eu ligo e uma voz de
homem diz bem enérgico: “atenção este
telefone está temporariamente fora de serviço”. Bem que ele podia ser menos
grosseiro, menos impessoal, afinal ele não sabe a dor que está do outro lado o
ouvindo. Tecnologia...falta de sensibilidade isso sim!
“Passado o estágio do
condicionamento, eu dizia tentando disfarçar a voz de sono:” não pai só estou
descansando mais um pouco. Mal sabia ele que eu estava no melhor do meu sono
depois de ter trabalhado uma semana em ritmo intenso, mas nunca falaria isso a
ele, disfarçava e a conversa começava:
- “eu
já fiz muitas coisas... Bem, eu não, minha “secretária” a Bê. Era assim que
ele chamava sua “namolher” (mistura de namorada com mulher); pois ficou viúvo
aos 47 anos. Acredito que a chamava assim demonstrando uma maneira carinhosa de
agradar, agradecer a pessoa que estava ali com ele há tantos anos.
Em nossas conversas, ele sempre me
dizia: “ela só pode gostar de mim mesmo,
um homem com mais de 70 anos, sem dinheiro e ainda por cima sem enxergar (ele
dizia mesmo cego), só pode ser amor”. Falava isso em virtude dela ter pelo menos uns
40 anos a menos que ele.
Aí ele começava: “A Bê (Bernadete) já fez
várias coisas e eu fico aqui só “observando”, sabe como é, preciso “ver” se
está fazendo direito. O serviço tem que sair perfeito“... E assim a
conversa continuava. Contava-me algumas histórias que já havia contado outras
vezes e eu fazia como se tudo fosse novidade. Falava de pessoas que eu nem
lembrava se cheguei a conhecê-las. “Até o nome delas ele lembrava e depois
falava: acho que não é do teu tempo”.
Como as fases que passamos em nossas
vidas diferenciam as interpretações que damos aos acontecimentos. Não estou me
referindo a fases boas ou ruins, mas as dos momentos onde a idade que temos
influencia muito o entendimento e a interpretação referentes a cada um deles.
Falo isso em virtude de hoje, em casa
sozinha, estar me lembrando que desde criança até meus 18 anos de idade, eu e
minhas primas por parte de pai só podíamos sair à noite para a “balada” se
fossemos acompanhadas pelos meus tios Zeca e tia Lourdes, que acompanhavam a
filha, minha prima Denise em todos os lugares. Fomos criadas assim. Filhas de
portugueses o que se esperaria... Fale
isso para um jovem hoje, ele ri em sua “cara” e sai andando.
Tínhamos uma turma enorme de amigos e
amigas que saiam sempre conosco, como todo jovem de hoje possui, mas estávamos
constantemente acompanhadas pelo olhar atento de minha tia, que de onde ficava
sentada tinha uma visão panorâmica de tudo e de todos, não perdia ninguém. Meu
ti Zeca era Diretor do Clube de Regatas Tumiaru, localizado na cidade de São
Vicente, estado de São Paulo, Brasil e ficava mais trabalhando do que
propriamente sentado, mas sua representante cumpria com maestria seu papel de
protetora.
Íamos ao “baile” do Tumiaru todos os
domingos, ou melhor, íamos às “domingueiras” . Era o máximo!
E o carnaval! Não víamos à hora dele
chegar. Preparávamos todas as fantasias iguais para a turma toda. Minha mãe
fazia a minha e mais algumas. Impossível descrever como nos divertíamos muito!
A única “droga” que conhecíamos era
quando a orquestra tocava “...é hoje só, só, só, vai acabar já, já...” Nesse
momento falávamos “droga acabou, agora só o ano que vem”.
Bem, me deixa voltar para o assunto
que quero correlacionar com o que comecei escrevendo se não vai ficar parecendo
o “samba do crioulo doido”.
Saíamos sempre, em todo final de
semana e depois íamos dormir na casa dos meus tios, que ficava distante apenas
três quadras da minha. E não é que meu pai fazia com que eu fosse todo domingo
pela manhã tomar café com eles e depois poderia voltar para onde estava. Eu não
acreditava, morrendo de sono, minhas primas dormindo e lá ia eu até em casa
tomar café com a família... Inacreditável para mim naquela época!
Gente me dava uma raiva danada
naquela época e como sempre fui “bocuda”, ia reclamando, batendo o pé com força
no chão para a raiva passar até chegar a casa onde a mesa já estava posta por
ele, o café que ele já havia coado, comprado o pão fresquinho como fazia todos
os dias. Eu nem me atinha e nem valorizava tudo isso. Engolia tudo com uma
rapidez inacreditável, dava um beijo nele e voltava para a casa dos meus tios;
pois era lá que todo mundo estava. Todo mundo menos meus pais.
Pensem comigo, como se tivessem a
minha idade naquela época: “dá para
entender uma coisa dessas, vir só para tomar café juntos dar um beijo no rosto
dele e voltar”!
Juro, eu não entendia, ficava
enfurecida; pois só eu tinha que fazer isso. Todo mundo tinha pai e mãe e
ninguém ia tomar café em casa e voltar, era demais...
Os anos se passaram, hoje tenho meus
filhos e consigo sentir o que meu pai sentia: o prazer de ter a mesa toda a sua
família reunida. Éramos quatro ao todo.
Adoro quando todos estão juntos,
rindo e brincando. Adorava nos últimos anos, os cafés de domingo em casa,
quando juntava meu pai, meu irmão, meus filhos, meus sobrinhos, a Bê a Nice e
quem mais estivessem... Tudo era muito divertido.
Gosto de família. Gosto de tê-los em minha casa!
Às vezes me analiso e percebo que
quando eu tinha 20 anos e minha mãe faleceu, inconscientemente eu tomei para
mim o “posto de matriarca”, não queria perder ninguém, mais do que já havia
perdido. Queria todos juntos.
Bem mais tarde percebi que não dá
para assumir o “posto” para a qual você não foi designada. É uma pena!
Como gostaria de voltar àqueles
domingos em que eu tinha que ir tomar café em casa ou mesmo ser acordada ao som
estridente de um telefone aos domingos pela manhã.
Tudo se foi, ficaram apenas as
lembranças, as saudades e a vontade de dizer a DEUS: “deixa só mais uma vez, como aqueles desenhinhos do facebook, por favor, só mais um cafezinho!”
Mas não dá, não pode, não é assim que
as coisas acontecem.
Quem sabe um dia em outro lugar
teremos a oportunidade de tomar café juntos outra vez. Prometo que não serei “bocuda”. E o senhor
sabe que meu amor é eterno e incondicional por ti.
Deixo esse texto para a reflexão
daqueles que se interessarem em lê-lo, o quanto é bom ter a família unida em
momentos especiais como nas refeições, no contar às novidades que ocorreram
durante o dia, passear juntos. Acredito que fortalece os laços de amor e
respeito, bem como deixam lembranças que levaremos para todo o sempre.
Os dias estão tão cheios de afazeres
que na maioria das vezes não fazemos mais nada disso juntos. Estamos numa fase
que até mesmo dentro de uma mesma casa seus membros conversam através do
computador.
Vamos retornarmos a ser HUMANOS
novamente e deixar a tecnologia para as descobertas importantes para o
progresso do ser humano em vários aspectos, mas o amor nunca será conquistado
por um computador. Ele é coisa e nós somos HUMANOS, ou deveríamos ser.
Pense sobre isso!
Simples Assim!
(Selma Serrano Amaral)
(Selma Serrano Amaral)


