quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Acorda “Bruxinha”


Levo um susto imenso quando toca o telefone domingo pela manhã.
Ouço a voz do outro lado da linha: “acorda sua bruxinha, isso é hora de estar dormindo ainda? Eram assim todos os domingos. Eu já estava até condicionada, como a experiência com os bichinhos que fazíamos na escola, dormindo, toca o telefone, me assusto e do outro lado da linha era meu pai. Não falhava nenhum domingo. Hoje até estranho o silêncio do telefone. Às vezes fico olhando para ele que está bem ao lado da cabeceira de minha cama e fico pensando: toca, toca mais uma vez para mim, mas não, ele fica mudo, totalmente em silêncio.
Por muitas vezes eu ligo e uma voz de homem diz bem enérgico: “atenção este telefone está temporariamente fora de serviço”. Bem que ele podia ser menos grosseiro, menos impessoal, afinal ele não sabe a dor que está do outro lado o ouvindo. Tecnologia...falta de sensibilidade isso sim!
“Passado o estágio do condicionamento, eu dizia tentando disfarçar a voz de sono:” não pai só estou descansando mais um pouco. Mal sabia ele que eu estava no melhor do meu sono depois de ter trabalhado uma semana em ritmo intenso, mas nunca falaria isso a ele, disfarçava e a conversa começava:
- “eu já fiz muitas coisas... Bem, eu não, minha “secretária” a Bê. Era assim que ele chamava sua “namolher” (mistura de namorada com mulher); pois ficou viúvo aos 47 anos. Acredito que a chamava assim demonstrando uma maneira carinhosa de agradar, agradecer a pessoa que estava ali com ele há tantos anos.
Em nossas conversas, ele sempre me dizia: “ela só pode gostar de mim mesmo, um homem com mais de 70 anos, sem dinheiro e ainda por cima sem enxergar (ele dizia mesmo cego), só pode ser amor”.  Falava isso em virtude dela ter pelo menos uns 40 anos a menos que ele.
Aí ele começava: “A Bê (Bernadete) já fez várias coisas e eu fico aqui só “observando”, sabe como é, preciso “ver” se está fazendo direito. O serviço tem que sair perfeito“... E assim a conversa continuava. Contava-me algumas histórias que já havia contado outras vezes e eu fazia como se tudo fosse novidade. Falava de pessoas que eu nem lembrava se cheguei a conhecê-las. “Até o nome delas ele lembrava e depois falava: acho que não é do teu tempo”.
Como as fases que passamos em nossas vidas diferenciam as interpretações que damos aos acontecimentos. Não estou me referindo a fases boas ou ruins, mas as dos momentos onde a idade que temos influencia muito o entendimento e a interpretação referentes a cada um deles.
Falo isso em virtude de hoje, em casa sozinha, estar me lembrando que desde criança até meus 18 anos de idade, eu e minhas primas por parte de pai só podíamos sair à noite para a “balada” se fossemos acompanhadas pelos meus tios Zeca e tia Lourdes, que acompanhavam a filha, minha prima Denise em todos os lugares. Fomos criadas assim. Filhas de portugueses o que se esperaria...  Fale isso para um jovem hoje, ele ri em sua “cara” e sai andando.
Tínhamos uma turma enorme de amigos e amigas que saiam sempre conosco, como todo jovem de hoje possui, mas estávamos constantemente acompanhadas pelo olhar atento de minha tia, que de onde ficava sentada tinha uma visão panorâmica de tudo e de todos, não perdia ninguém. Meu ti Zeca era Diretor do Clube de Regatas Tumiaru, localizado na cidade de São Vicente, estado de São Paulo, Brasil e ficava mais trabalhando do que propriamente sentado, mas sua representante cumpria com maestria seu papel de protetora.
Íamos ao “baile” do Tumiaru todos os domingos, ou melhor, íamos às “domingueiras” . Era o máximo!
E o carnaval! Não víamos à hora dele chegar. Preparávamos todas as fantasias iguais para a turma toda. Minha mãe fazia a minha e mais algumas. Impossível descrever como nos divertíamos muito!
A única “droga” que conhecíamos era quando a orquestra tocava “...é hoje só, só, só, vai acabar já, já...” Nesse momento falávamos “droga acabou, agora só o ano que vem”.
Bem, me deixa voltar para o assunto que quero correlacionar com o que comecei escrevendo se não vai ficar parecendo o “samba do crioulo doido”.
Saíamos sempre, em todo final de semana e depois íamos dormir na casa dos meus tios, que ficava distante apenas três quadras da minha. E não é que meu pai fazia com que eu fosse todo domingo pela manhã tomar café com eles e depois poderia voltar para onde estava. Eu não acreditava, morrendo de sono, minhas primas dormindo e lá ia eu até em casa tomar café com a família... Inacreditável para mim naquela época!
Gente me dava uma raiva danada naquela época e como sempre fui “bocuda”, ia reclamando, batendo o pé com força no chão para a raiva passar até chegar a casa onde a mesa já estava posta por ele, o café que ele já havia coado, comprado o pão fresquinho como fazia todos os dias. Eu nem me atinha e nem valorizava tudo isso. Engolia tudo com uma rapidez inacreditável, dava um beijo nele e voltava para a casa dos meus tios; pois era lá que todo mundo estava. Todo mundo menos meus pais.
Pensem comigo, como se tivessem a minha idade naquela época: “dá para entender uma coisa dessas, vir só para tomar café juntos dar um beijo no rosto dele e voltar”!
Juro, eu não entendia, ficava enfurecida; pois só eu tinha que fazer isso. Todo mundo tinha pai e mãe e ninguém ia tomar café em casa e voltar, era demais...
Os anos se passaram, hoje tenho meus filhos e consigo sentir o que meu pai sentia: o prazer de ter a mesa toda a sua família reunida. Éramos quatro ao todo.
Adoro quando todos estão juntos, rindo e brincando. Adorava nos últimos anos, os cafés de domingo em casa, quando juntava meu pai, meu irmão, meus filhos, meus sobrinhos, a Bê a Nice e quem mais estivessem... Tudo era muito divertido.
Gosto de família.  Gosto de tê-los em minha casa!
Às vezes me analiso e percebo que quando eu tinha 20 anos e minha mãe faleceu, inconscientemente eu tomei para mim o “posto de matriarca”, não queria perder ninguém, mais do que já havia perdido. Queria todos juntos.
Bem mais tarde percebi que não dá para assumir o “posto” para a qual você não foi designada. É uma pena!
Como gostaria de voltar àqueles domingos em que eu tinha que ir tomar café em casa ou mesmo ser acordada ao som estridente de um telefone aos domingos pela manhã.
Tudo se foi, ficaram apenas as lembranças, as saudades e a vontade de dizer a DEUS: “deixa só mais uma vez, como aqueles desenhinhos do facebook, por favor, só mais um cafezinho!
Mas não dá, não pode, não é assim que as coisas acontecem.
Quem sabe um dia em outro lugar teremos a oportunidade de tomar café juntos outra vez.  Prometo que não serei “bocuda”. E o senhor sabe que meu amor é eterno e incondicional por ti.
Deixo esse texto para a reflexão daqueles que se interessarem em lê-lo, o quanto é bom ter a família unida em momentos especiais como nas refeições, no contar às novidades que ocorreram durante o dia, passear juntos. Acredito que fortalece os laços de amor e respeito, bem como deixam lembranças que levaremos para todo o sempre.
Os dias estão tão cheios de afazeres que na maioria das vezes não fazemos mais nada disso juntos. Estamos numa fase que até mesmo dentro de uma mesma casa seus membros conversam através do computador.
Vamos retornarmos a ser HUMANOS novamente e deixar a tecnologia para as descobertas importantes para o progresso do ser humano em vários aspectos, mas o amor nunca será conquistado por um computador. Ele é coisa e nós somos HUMANOS, ou deveríamos ser.
Pense sobre isso!
Simples Assim!
(Selma Serrano Amaral)

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