quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Quanta Paz!!!


Estou sentada a porta de minha varanda lendo; afinal, encontro-me de férias!
De vez em quando dou uma espiadela em alguns movimentos que ocorrem ao meu redor, mas, imediatamente volto-me a leitura, sem dar muita atenção.
Minhas duas cachorras dormem esticadas no chão tentando suportar o calor que está muito forte. Imagine sensação térmica de quase 50 graus Celsius!
Juntamente a nós três, está meu canário branco. Canta como se o mundo fosse acabar hoje, quanto fôlego! De vez em quando pula de um poleiro para o outro, come, bebe água, enfim, não tem sossego. Para completar este cenário, estamos sendo acariciados pelo vento forte e revigorante de um grande ventilador. Só assim para suportar o abafamento.
Lá fora os pássaros descem da árvore e da roseira para comer as quirelas que caem do prato que fica pendurado em um dos galhos da árvore. Engenhocas do Sr. João Abel, meu pai e que fiz questão de continuar com essa “tradição”; pois foi a última imagem que tive dele aqui nessa casa, antes de sair para o hospital, no qual se internaria para refazer uma cirurgia cardíaca em  novembro de 2011 e nunca mais voltaria. Logo cedo vim buscá-lo. Falei do portão: “pai, sou eu” e ao mesmo tempo olhei pela pequena abertura que existe no portão. Sua resposta foi: “já vou filha, espera só um pouquinho”! Continuei a observá-lo e o vi pegando, no local já de costume, as quirelas dos pássaros e as colocava no prato, como de costume.
“Naquele momento pensei:” como pode uma pessoa de 79 anos que não enxerga mais em virtude do glaucoma que levou embora toda a sua visão, que vai se submeter a uma cirurgia de alto risco, lembrar em deixar a comidinha dos pássaros, que com o amanhecer já estavam acostumados a encontrá-la.
Foi uma imagem linda!  Sei que nunca mais sairá de minha memória e de meu coração.
Têm rolinhas, biquinhos-de-lacre (era assim que ele os chamava), pardais e outros que desconheço os nomes.
Nesse instante abaixei o livro e fiquei prestando atenção no que estava ocorrendo em meu entorno. Huanna, uma pitbull branca lindíssima, dormia como uma criança, até ressonando, fazendo barulhos e se mexendo como se estivesse tendo altos sonhos. Será que cachorro sonha? Uma boa pergunta para ser pesquisada. Logo ao lado, a “donzela maluca” Haycka, uma dachshund teckel, mais popularmente conhecida como cachorro salsicha, Cofap e sei lá mais o quê. Só sei que tem “espírito de porco”, popularmente falado; ou seja, não para, estraga tudo, adora fazer xixi na da cama do meu filho que detesta cachorro, adora correr atrás das rolinhas e quando uma bobeia “já era” literalmente. Entenderam como ela é infernal, mas quando me olha com aqueles olhinhos de “me desculpa, eles que me provocaram”, esqueço suas peripécias e ainda ganha um colo. Agora mesmo está brigando com um tapete pequeno porque ele não quer ficar na posição certa que ela deseja para se aconchegar; é mole ou quer mais!
Ouço o canto dos pássaros, vejo-os dando pequenos vôos como se estivessem brincando um com o outro. Agora consegui contar, pelo menos, uns dez deles no chão fazendo estripulias, pulando, abrindo as asas, correndo um atrás do outro.
Começa a soprar uma brisa, balançando os galhos das árvores de uma forma rítmica, aguçando a vontade das folhas em bailar no mesmo ritmo.
Ao longe ouço as vozes dos vizinhos que estão pintando a casa para a festa do Ano Novo, carros transitando e pessoas caminhando. A vizinhança não é grande; pois a rua é pequena e tranqüila e quase a totalidade dela já se conhece por mais de trinta anos.
Tempos atrás, nesse momento de férias, estaria impaciente para sair, ir passear no shopping, gastar dinheiro, comprar coisas no cartão de crédito e depois enlouquecer para pagá-lo, comer, ficar olhando outras pessoas se movimentando e como se comportavam. Uma verdadeira fofoqueira fútil! Brincadeira,foi só uma descontração no texto.
Engraçado como mudamos, como nossos valores passam a ser outros. Não digo nem melhores nem piores e sim apenas aqueles aos quais nos identificamos mais no momento.
Hoje eu quero isso: paz, ver a simplicidade nas e das coisas.  Perceber que há um movimento maravilhoso ao nosso redor e nem nos damos conta. Aproveitar meu tempo livre para “curtir” minha casa, meus livros; pois adoro ler e acima de tudo, me “curtir”. Estar bem comigo mesma, sem ansiedades, sem ter que agradar alguém ou fazer o que não quero no momento, sem culpas, sem estresses, sem cobrar-me perfeição no que faço. Hoje caminho no meu ritmo, no meu compasso.
Estou sendo “eu”, autenticamente “eu” e motivada a viver um dia de cada vez. Apreciando toda a beleza que ele pode me oferecer.
Estou recarregando minha “bateria” humana, me sentindo fazendo parte dessa natureza maravilhosa, desse mundo de valores simples, não simplórios, acreditando que poderia haver muito mais paz se mais pessoas reconhecessem a importância de se envolver pela beleza de “ser um eterno aprendiz”.

Simples Assim!!!.
(Selma Serrano Amaral)


2 comentários:

Roberto disse...

Simples assim, mas muito profundo amiga.Assim como você, hoje sou muito ligado nestas pequenas grandes coisas que dão-me imenso prazer.
Escrever é a mais bela das artes. Contar o que se vê, e o que se passou é mostrar a vida como ela é, e você o faz lindamente.
Estás vivendo um momento de muita inspiração e ternura.
Parabéns querida amiga.

Selma Serrano Amaral disse...

a vida nos prega muitas peças. Já fui uma pessoa que trabalhava em torno de 14 hs por dia, quase não acompanhei o crescimento dos meus filhos e hoje me descubro gostando de coisas simples e que estão me fazendo imensamente feliz. Quem dera que as pessoas, quando mais jovens, pudessem entender o quanto é bom apreciar as coisas simples que a vida nos oferece para depois não ter que buscar auxílio em médicos, como é o que vem acontecendo ultimamente. Gosto de escrever e nunca tinha tempo para isso. Agora me permito ser feliz e essa felicidade está se tornando uma forma de eu dizer ao mundo que é melhor amar, ser terno e grato do que gastar dinheiro em médicos. A vida nos ensina . Ou você aprende pelo amor ou pela dor. Obrigada Roberto pelos elogios e acima de tudo por ter lido meus textos. Sua opinião é muito importante.